
“Posso morar no planeta Terra, mas não me defino como terráquea. Nem pensar. Eu não sou como os outros habitantes daqui, que confiam mais em tudo o que veem. Meu mundo vai além disso. Gosto mais de coisas abstratas, como o céu que não posso tocar e o amor que não posso ver. Apesar de não serem visíveis, eu os sinto. Apesar de todas as decepções constantes, eu continuo acreditando num Deus supremo e todo poderoso. Continuo pensando que o amor me trará algo melhor que lágrimas. E não sou muito pessimista. Só um pouquinho. Não coloco fé nessas paradas de apocalipse, demônio, homem do saco, fim dos tempos… Prefiro focar na minha vida. O mundo está aí, desabando. Desintegrando bem na frente dos meus olhos. E isso nunca me arrancou a felicidade. Se me feriram, é claro que sofro bastante. Agora, se num raio de dois quilômetros, há pessoas arrancando a cabeça uma da outra… Não ligo. Generosidade eu uso com quem me faz bem e sabe reconhecer. Os jovens de hoje acham mais conveniente pensar com a cabeça de baixo. Cérebro, relaxa. Eu não vou te abandonar. Não curto isso de bagunçar a natureza. Porque sei o que é ter um coração bagunçado. Tenho medo do futuro, logicamente. Medo do que vocês estão fazendo com ele. Estou vendo a ética sendo jogada no lixo. Personalidades boas sumiram. Os restos de educação e inteligência são meros fragmentos dentro de uma lixeira. Não é necessário repetir o de sempre: que o mundo não vai acabar, ele já acabou faz um tempo. Vocês sabem. E pisam em cima dos valores morais como se fossem papel de bala comestível, certo? Querem o que? Um pedaço de vergonha na cara? O mínimo de decência? Ah, não. Vocês querem talvez férias pra vida inteira. Querem param de estudar para poderem se agarrar vinte e quatro horas por dia nas esquinas da rua. Ah, contem outra. Essa história eu conheço. É uma história com um final ridículo. Nada feliz.” — Mayne S, linhas gastas

